• 27 de fevereiro de 2025 12:10

Sete das dez rodovias mais mortais do país precisam de ‘manutenção urgente’, diz CNT

Sete das dez rodovias mais mortais do país precisam de ‘manutenção urgente’, diz CNT 1Foto: Giovana Cardoso/ R7

Sete das dez principais rodoviais federais com maior número de mortes no Brasil apresentam algum tipo de problema na infraestrutura, como buracos e ondulações. Em 2024, as pistas com algum defeito tiveram 2.647 mortes, sendo a maioria deles na BR-153, que liga Brasília a Belém, segundo a CNT (Confederação Nacional do Transporte). As rodovias são classificadas como regulares, e segundo a entidade “estão à beira de uma deterioração mais severa, exigindo manutenção urgente para evitar seu agravamento”. Segundo a CNT, “sem intervenções adequadas e tempestivas de manutenção, estes trechos possivelmente migrarão para as categorias ruim ou péssimo”.

Os problemas observados nas rodovias aumentam os riscos de acidentes, além causarem desgastes nos veículos, elevando custos operacionais e maior consumo de combustíveis, aponta a CNT. Para especialistas ouvidos pelo R7, problemas de infraestrutura nas vias brasileiras impactam diretamente no comportamento e segurança dos motoristas.

No Brasil, 67% das rodovias, incluindo federais e estaduais, são classificadas como regulares, ruins ou péssimas, ao passo que 33% estão em estado ótimo ou bom. As classificações consideram aspectos como pavimentação, sinalização e geometria da via.

Órgãos ligados ao setor de transportes e especialistas entendem que a infraestrutura é um dos principais elementos que garantem um trânsito seguro. A OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta que cerca de 80% das vias avaliadas globalmente não atendem a uma classificação mínima de 3 estrelas para segurança de pedestres, por exemplo.

O diretor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Transportes, Marcus Quintella, explica que o ideal é que uma rodovia esteja classificada como excelente ou boa para evitar acidentes. Das vias analisadas para esta reportagem, apenas três são definidas como boas: a BR-116 (Ceará ao Rio Grande do Sul), BR-101 (Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul) e BR-277 (Paraná).

“Às vezes, a classificação da rodovia como regular já tem deficiência o suficiente para contribuir para acidentes. Quando você tem sinalização horizontal e vertical, boa aderência do carro no pavimento, boa visibilidade, tudo isso vai também influenciar que o motorista respeite todas as condições da rodovia. Pode haver abusos, logicamente, mas certamente isso vai criar menos problemas”. (Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes )

Causas e danos

São inúmeros os fatores que causam acidentes em rodovias, sejam eles por falhas humanas, de veículos ou até mesmo ambientais. Em 2024, o Brasil teve 60.365 acidentes em rodovias federais e pouco mais de 5.000 mortes, apontam dados da Polícia Rodoviária Federal. Além das vítimas, é estimado que os acidentes ocorridos nas pistas tenham gerado um custo de R$ 12,98 milhões.

A CNT estima, ainda, que o setor de transporte teve um custo adicional de R$ 6,81 bilhões devido ao trafego de caminhões e ônibus em vias deterioradas.

A CNT diz que as principais causas de acidentes em rodovias são a reação tardia do condutor (7.614), acesso a via sem observar a presença de outros veículos (5.259) e pelo motorista não manter distância do carro da frente (3.142).

Os problemas observados nas rodovias brasileiras resultam em uma série de consequências negativas para os usuários. Entre os problemas mais recorrentes associados às deficiências no pavimento, destaca-se a presença de trincas, remendos mal-executados, afundamentos, buracos e o desgaste da superfície. Se essas deteriorações não forem tratadas de forma adequada e tempestivamente, elas podem gerar efeitos bastante prejudiciais aos usuários das vias.

(Pesquisa CNT Rodovias 2024)

Investimentos

Especialistas entendem que o orçamento e a falta de investimento são os principais empecilhos para o aprimoramento das rodovias. Entre 2011 e 2021, os investimentos públicos federais em rodovias registraram uma queda de 71,3%, equivalente a R$ 16,46 bilhões, aponta a CNT.

Em contrapartida, de 2022 para 2023 o valor investido cresceu, passando de R$ 6,97 bilhões para R$ 13,22 bilhões, praticamente o dobro. Considerando a destinação dos recursos, os valores para manutenção e recuperação passaram de 32,2% do total aplicado em 2012 para 78,6% em 2023.

De maneira geral, a confederação estima que seriam necessários R$ 99,77 bilhões para reconstrução, restauração e manutenção no pavimento das rodovias.

A maioria das rodovias sob gestão privada estão em condições ótimas e boas. Entretanto, Quintella ressalta que a construção de rodovias que contribuam para o desenvolvimento econômico é papel do Estado.

“O privado entra em bons projetos, já na maioria das vezes construídos para contribuir com os investimentos, mas o privado não é responsável pelo desenvolvimento da infraestrutura de transporte de um país”, completa Quintella.

Para garantir boas condições de tráfego e segurança aos usuários, investimentos tempestivos e constantes são necessários. Com baixos investimentos, o pavimento e a sinalização podem se deteriorar completamente, resultando em riscos para os usuários, trânsito mais lento e perdas econômicas.

(Pesquisa CNT Rodovias 2024)

Prevenção de acidentes

Considerando as diversas causas que contribuem para um acidente, a doutora em transportes Adriana Modesto explica que deve haver, por parte do governo e população, maior conscientização quanto à gravidade dos prejuízos causados por acidentes de trânsito, incentivo ao uso de meios de transporte mais seguros, além do fortalecimento da fiscalização e efetividade no cumprimento de medidas legais quando o judiciário é acionado.

“Como riscos potenciais, há que se considerar as características das rodovias brasileiras, pois, além dos fatores humanos, aqueles relacionados aos veículos e ao ambiente da via, as condições relacionadas à infraestrutura podem incrementar a insegurança. Considerando ainda a falibilidade humana, é necessário que haja mecanismos e ações capazes de propiciar a segurança dos usuários da via, tais como intervenções, esforço legal e campanhas de sensibilização quantos aos riscos no trânsito”, completa.

Apesar dos riscos causados por pistas com danos, motoristas também devem ter a atenção redobrada em trechos perigosos e se atentar aos caminhos percorridos. Modesto reforça pontos fundamentais que condutores devem seguir, entre eles atenção à legislação de trânsito, não dirigir caso consuma álcool e respeitar os limites de velocidade.

“Ao pegar a estrada, algumas atitudes por parte do viajante poderão contribuir para a sua segurança, dos demais passageiros e também a dos outros usuários da via. Adicionalmente, a adequada acomodação das bagagens, a revisão do veículo, o planejamento da viagem considerando o conhecimento do percurso, as características dos trechos, inclusive tendo em vista intempéries ou características topográficas, programação de paradas estratégicas para ser evitada fadiga de modo a comprometer a atenção e habilidade veicular”, finaliza.

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